3 de março de 2010

Quantas mais derrocadas, e mortes, ainda?

Quantas mais derrocadas, e mortes, ainda?
Escrito por Manuel Moniz
Terça, 02 Março 2010

Manda a precaução política que hoje não é dia de críticas. É dia de tristeza, de enterrar os mortos, e o resto do blabla. Ontem foi dia dos governantes se mostrarem – como se a sua presença nos locais afectados pelos temporais resolvesse alguma coisa. Mas ficam bem na fotografia política. As declarações são em geral do mesmo tom: a perda de vidas, a perda de bens, aquele sentimento de inevitabilidade, por estarmos aqui à mercê dos Deuses, e o outro, mais positivo, de que poderia ter sido muito pior. Conheço já de cor todo este protocolo. E de tão repetitivo, já começa a cansar.

É que, infelizmente, o cidadão comum não tem razões para se sentir seguro. O mal feito, aqui, revela-se sempre à posteriori: as inundações que os responsáveis não tinham previsto, as derrocadas que nenhum responsável pensara ser imaginável, as mortes absolutamente impensáveis… Cá, com um bónus: choram-se as perdas, mas já nem sequer se colocam trancas nas casas roubadas! Mais ano menos ano, tudo se repete.

Por isso deixámos para ontem a tristeza, e hoje é dia de crítica.
Porque já ninguém pode confiar na administração que temos. Protecção Civil deveria significar capacidade de intervenção, mas também de prevenção. O que temos é um grande esforço humano, especialmente dos bombeiros e população em geral, quando as catástrofes acontecem, mas uma óbvia falta de mais valia de um sistema muito pomposo, mas que na prática não existe nem traz nenhuma mais valia ao que já temos instalado no terreno. Quanto a prevenção, isso é certamente um conceito oco junto dos responsáveis.
Não é a primeira vez que um carro é arrastado por uma derrocada lateral. Não será, provavelmente, a última. A conclusão óbvia para os cidadãos actuais é que não se deve circular nas estradas de S. Miguel quando chover um pouco mais. É essa a realidade, pura e dura. Porque, como nada é feito a montante – nomeadamente na condução dos escorrimentos das águas dos pontos mais altos – a probabilidade disto voltar a acontecer é enorme. E se pode acontecer, acontecerá!

É que nem choveu muito. O Instituto de Meteorologia indica para o Nordeste os valores de 77 litros por metro quadrado em 12 horas (42 litros das 6 às 10 horas da manhã). Como termo de comparação, na Madeira foram 170 litros em 6 horas (e 58 litros numa das horas). Na Agualva foram 112 litros em 6 horas. Aliás, terá chovido mais em Ponta Delgada do que no Nordeste: nas mesmas 12 horas, 101 litros registados no Relvão e 94 litros na Nordela. É óbvio que em determinados locais poderá ter chovido mais – e temos alertado exactamente para o problema desses picos –, mas nada que, só por si, justificasse essa derrocada.

Claro, se o trabalho de casa tivesse sido feito…
Na Ribeira Quente, uma fortíssima derrocada na zona do Túnel felizmente não apanhou ninguém. Apetece perguntar: mais uma vez?
Apesar das desgraças passadas, nada se resolveu ali! A Caloura é uma novidade. Mas também já se vinha falando das mexidas de terras a montante – e, de novo, não houve nenhum responsável que tivesse percebido que alguma coisa podia acontecer… Estou para saber se o caminho da Fajã do Calhau terá cedido com esta tempestade – mas se não for, irá com outra! E ele continua a ser feito, roubando dinheiro e mão de obra a trabalhos que seriam bem mais importantes.

É óbvio que vivemos em ilhas, no meio do mar, e muitos temporais ainda nos assolarão – tal como muitos outros já aconteceram no passado. Mas é exactamente por isso que os responsáveis têm de ter capacidade para dar resposta, não depois das desgraças acontecerem, mas de modo a evitá-las. Porque isto assim já começa a ser um drama!

1 comentário:

  1. Muito bem dito, como eu já tinha dito...
    Parabéns por divulgares.

    ResponderEliminar