Nata sou eu! Café é o meu vício, a minha companhia, ... a quem eu conto algumas das minhas aventuras... Benvindos ao meu Café com Nata
24 de dezembro de 2010
4 de outubro de 2010
27 de junho de 2010
E depois?? (pseudo-reflexão)
Faz hoje 2 anos...
E depois?
E depois?
Antes
O stress de querer terminar este projecto, mas as distâncias não ajudam!
Durante o segundo ano do mestrado, estive repartida entre Santa Maria e São Miguel, o que não facilitou muito, estava longe dos orientadores que se encontravam na Terceira. Eu sei que a internet encurta as distâncias, mas ... nesses anos, a minha vida circunscrevia-se no meu triângulo (SMA-SMG-TER)!
Durante
A defesa é uma prova de fogo onde nada pode escapar. Mesmo nada...
Pode parecer ridículo, e quanto a mim é....
A toilette tem de se criteriosamente escolhida.
Se poderem levar "público", levem - já agora, se forem Professores Doutores tanto melhor.
Não se esqueçam que comecei por dizer que considero ridículo!
Claro está que não se podem esquecer da defesa, mas o ambiente envolvente também conta.
E depois?
Passados 2 anos continuo a ser a mesma, com qualidades e com defeitos...
O conhecimento sobre as questões ambientais aumentou, minha atitude e comportamento melhorou (talvez!), mas não sei se me tornei mais pro-activa (penso que sim) e mais preocupada com os problemas ambientais (creio que sim). A aplicação destes conhecimentos, na prática, são poucos porque ... , já estou como diz o outro "deixem-nos trabalhar!".
27 de abril de 2010
Ensino Experimental das Ciências
A escola de hoje está sempre a apelar à inovação!
Entenda-se inovação como experiências/práticas pedagógica conducentes à melhoria do desempenho escolar dos alunos.
Depois das formações nos Novos Programas de Língua Portuguesa e de Matemática, alerto para que não se esqueçam do Ensino Experimental das Ciências.
Todos nós sabemos que o ensino das ciências, principalmente no 1º e 2º CEB; está algo desequilibrado, pois dificilmente os alunos experimentam e estabelecem conexões entre a teoria e a prática, o que leva ao insucesso e ao repúdio, por parte dos mesmos.
Sabemos também, que a SREF tem vindo a colmatar esta lacuna, tendo no ano lectivo 2009/2010, através ponto 11 do Despacho n.º 858/2009, de 30 de Julho de 2009, permitido o desdobramento de turmas do 3º Ciclo em turnos, de modo a “permitir o desenvolvimento de actividades experimentais, num segmento de 45 minutos ou num bloco.”
Poderia até tecer vários argumentos sobre as vantagens do ensino experimental das ciências, mas assim fugiria à questão que aqui me traz.
A questão é a seguinte: porque é que não há desdobramento de turmas e organização de horários, no 2º Ciclos do Ensino Básico, de modo a promover o ensino experimental das ciências?
Sugiro que o novo diploma que irá estabelecer os princípios orientadores da organização e da gestão curricular da educação básica para o sistema educativo regional cumpra o Despacho n.º 14026/2007, de 3 de Julho, onde refere que “quando o número de alunos da turma for superior a 15, é autorizado o seu desdobramento num bloco de 90 minutos (…) de modo a permitir a realização de trabalho experimental”, respeitando a carga semanal dos alunos e a matriz curricular. Desta forma o desenvolvimento de trabalho experimental torna-se imperativo e talvez seja promotor da tal inovação pedagógica!
Aguardando por novidades inovadoras.
Com os melhores cumprimentos,
Natália Abreu
Entenda-se inovação como experiências/práticas pedagógica conducentes à melhoria do desempenho escolar dos alunos.
Depois das formações nos Novos Programas de Língua Portuguesa e de Matemática, alerto para que não se esqueçam do Ensino Experimental das Ciências.
Todos nós sabemos que o ensino das ciências, principalmente no 1º e 2º CEB; está algo desequilibrado, pois dificilmente os alunos experimentam e estabelecem conexões entre a teoria e a prática, o que leva ao insucesso e ao repúdio, por parte dos mesmos.
Sabemos também, que a SREF tem vindo a colmatar esta lacuna, tendo no ano lectivo 2009/2010, através ponto 11 do Despacho n.º 858/2009, de 30 de Julho de 2009, permitido o desdobramento de turmas do 3º Ciclo em turnos, de modo a “permitir o desenvolvimento de actividades experimentais, num segmento de 45 minutos ou num bloco.”
Poderia até tecer vários argumentos sobre as vantagens do ensino experimental das ciências, mas assim fugiria à questão que aqui me traz.
A questão é a seguinte: porque é que não há desdobramento de turmas e organização de horários, no 2º Ciclos do Ensino Básico, de modo a promover o ensino experimental das ciências?
Sugiro que o novo diploma que irá estabelecer os princípios orientadores da organização e da gestão curricular da educação básica para o sistema educativo regional cumpra o Despacho n.º 14026/2007, de 3 de Julho, onde refere que “quando o número de alunos da turma for superior a 15, é autorizado o seu desdobramento num bloco de 90 minutos (…) de modo a permitir a realização de trabalho experimental”, respeitando a carga semanal dos alunos e a matriz curricular. Desta forma o desenvolvimento de trabalho experimental torna-se imperativo e talvez seja promotor da tal inovação pedagógica!
Aguardando por novidades inovadoras.
Com os melhores cumprimentos,
Natália Abreu
11 de abril de 2010
3 de março de 2010
Quantas mais derrocadas, e mortes, ainda?
Quantas mais derrocadas, e mortes, ainda?
Escrito por Manuel Moniz
Terça, 02 Março 2010
Manda a precaução política que hoje não é dia de críticas. É dia de tristeza, de enterrar os mortos, e o resto do blabla. Ontem foi dia dos governantes se mostrarem – como se a sua presença nos locais afectados pelos temporais resolvesse alguma coisa. Mas ficam bem na fotografia política. As declarações são em geral do mesmo tom: a perda de vidas, a perda de bens, aquele sentimento de inevitabilidade, por estarmos aqui à mercê dos Deuses, e o outro, mais positivo, de que poderia ter sido muito pior. Conheço já de cor todo este protocolo. E de tão repetitivo, já começa a cansar.
É que, infelizmente, o cidadão comum não tem razões para se sentir seguro. O mal feito, aqui, revela-se sempre à posteriori: as inundações que os responsáveis não tinham previsto, as derrocadas que nenhum responsável pensara ser imaginável, as mortes absolutamente impensáveis… Cá, com um bónus: choram-se as perdas, mas já nem sequer se colocam trancas nas casas roubadas! Mais ano menos ano, tudo se repete.
Por isso deixámos para ontem a tristeza, e hoje é dia de crítica.
Porque já ninguém pode confiar na administração que temos. Protecção Civil deveria significar capacidade de intervenção, mas também de prevenção. O que temos é um grande esforço humano, especialmente dos bombeiros e população em geral, quando as catástrofes acontecem, mas uma óbvia falta de mais valia de um sistema muito pomposo, mas que na prática não existe nem traz nenhuma mais valia ao que já temos instalado no terreno. Quanto a prevenção, isso é certamente um conceito oco junto dos responsáveis.
Não é a primeira vez que um carro é arrastado por uma derrocada lateral. Não será, provavelmente, a última. A conclusão óbvia para os cidadãos actuais é que não se deve circular nas estradas de S. Miguel quando chover um pouco mais. É essa a realidade, pura e dura. Porque, como nada é feito a montante – nomeadamente na condução dos escorrimentos das águas dos pontos mais altos – a probabilidade disto voltar a acontecer é enorme. E se pode acontecer, acontecerá!
É que nem choveu muito. O Instituto de Meteorologia indica para o Nordeste os valores de 77 litros por metro quadrado em 12 horas (42 litros das 6 às 10 horas da manhã). Como termo de comparação, na Madeira foram 170 litros em 6 horas (e 58 litros numa das horas). Na Agualva foram 112 litros em 6 horas. Aliás, terá chovido mais em Ponta Delgada do que no Nordeste: nas mesmas 12 horas, 101 litros registados no Relvão e 94 litros na Nordela. É óbvio que em determinados locais poderá ter chovido mais – e temos alertado exactamente para o problema desses picos –, mas nada que, só por si, justificasse essa derrocada.
Claro, se o trabalho de casa tivesse sido feito…
Na Ribeira Quente, uma fortíssima derrocada na zona do Túnel felizmente não apanhou ninguém. Apetece perguntar: mais uma vez?
Apesar das desgraças passadas, nada se resolveu ali! A Caloura é uma novidade. Mas também já se vinha falando das mexidas de terras a montante – e, de novo, não houve nenhum responsável que tivesse percebido que alguma coisa podia acontecer… Estou para saber se o caminho da Fajã do Calhau terá cedido com esta tempestade – mas se não for, irá com outra! E ele continua a ser feito, roubando dinheiro e mão de obra a trabalhos que seriam bem mais importantes.
É óbvio que vivemos em ilhas, no meio do mar, e muitos temporais ainda nos assolarão – tal como muitos outros já aconteceram no passado. Mas é exactamente por isso que os responsáveis têm de ter capacidade para dar resposta, não depois das desgraças acontecerem, mas de modo a evitá-las. Porque isto assim já começa a ser um drama!
Escrito por Manuel Moniz
Terça, 02 Março 2010
Manda a precaução política que hoje não é dia de críticas. É dia de tristeza, de enterrar os mortos, e o resto do blabla. Ontem foi dia dos governantes se mostrarem – como se a sua presença nos locais afectados pelos temporais resolvesse alguma coisa. Mas ficam bem na fotografia política. As declarações são em geral do mesmo tom: a perda de vidas, a perda de bens, aquele sentimento de inevitabilidade, por estarmos aqui à mercê dos Deuses, e o outro, mais positivo, de que poderia ter sido muito pior. Conheço já de cor todo este protocolo. E de tão repetitivo, já começa a cansar.
É que, infelizmente, o cidadão comum não tem razões para se sentir seguro. O mal feito, aqui, revela-se sempre à posteriori: as inundações que os responsáveis não tinham previsto, as derrocadas que nenhum responsável pensara ser imaginável, as mortes absolutamente impensáveis… Cá, com um bónus: choram-se as perdas, mas já nem sequer se colocam trancas nas casas roubadas! Mais ano menos ano, tudo se repete.
Por isso deixámos para ontem a tristeza, e hoje é dia de crítica.
Porque já ninguém pode confiar na administração que temos. Protecção Civil deveria significar capacidade de intervenção, mas também de prevenção. O que temos é um grande esforço humano, especialmente dos bombeiros e população em geral, quando as catástrofes acontecem, mas uma óbvia falta de mais valia de um sistema muito pomposo, mas que na prática não existe nem traz nenhuma mais valia ao que já temos instalado no terreno. Quanto a prevenção, isso é certamente um conceito oco junto dos responsáveis.
Não é a primeira vez que um carro é arrastado por uma derrocada lateral. Não será, provavelmente, a última. A conclusão óbvia para os cidadãos actuais é que não se deve circular nas estradas de S. Miguel quando chover um pouco mais. É essa a realidade, pura e dura. Porque, como nada é feito a montante – nomeadamente na condução dos escorrimentos das águas dos pontos mais altos – a probabilidade disto voltar a acontecer é enorme. E se pode acontecer, acontecerá!
É que nem choveu muito. O Instituto de Meteorologia indica para o Nordeste os valores de 77 litros por metro quadrado em 12 horas (42 litros das 6 às 10 horas da manhã). Como termo de comparação, na Madeira foram 170 litros em 6 horas (e 58 litros numa das horas). Na Agualva foram 112 litros em 6 horas. Aliás, terá chovido mais em Ponta Delgada do que no Nordeste: nas mesmas 12 horas, 101 litros registados no Relvão e 94 litros na Nordela. É óbvio que em determinados locais poderá ter chovido mais – e temos alertado exactamente para o problema desses picos –, mas nada que, só por si, justificasse essa derrocada.
Claro, se o trabalho de casa tivesse sido feito…
Na Ribeira Quente, uma fortíssima derrocada na zona do Túnel felizmente não apanhou ninguém. Apetece perguntar: mais uma vez?
Apesar das desgraças passadas, nada se resolveu ali! A Caloura é uma novidade. Mas também já se vinha falando das mexidas de terras a montante – e, de novo, não houve nenhum responsável que tivesse percebido que alguma coisa podia acontecer… Estou para saber se o caminho da Fajã do Calhau terá cedido com esta tempestade – mas se não for, irá com outra! E ele continua a ser feito, roubando dinheiro e mão de obra a trabalhos que seriam bem mais importantes.
É óbvio que vivemos em ilhas, no meio do mar, e muitos temporais ainda nos assolarão – tal como muitos outros já aconteceram no passado. Mas é exactamente por isso que os responsáveis têm de ter capacidade para dar resposta, não depois das desgraças acontecerem, mas de modo a evitá-las. Porque isto assim já começa a ser um drama!
1 de março de 2010
Escola
"Na Infância as escolas ainda não tinham fechado. Ensinavam-nos coisas inúteis como as regras da sintaxe e da ortografia, coisas traumáticas como sujeitos, predicados e complementos directos, coisas imbecis como verbos e tabuadas. Tinham a infeliz ideia de nos ensinar a pensar e a surpreendente mania de acreditar que isso era bom. Não batíamos na professora, levávamos-lhe flores."
by Rosa Lobato Faria
Ainda sou desse tempo. Porque será que mudou?
Aí como era bom poder receber flores...
Ainda sou desse tempo. Porque será que mudou?
Aí como era bom poder receber flores...
23 de janeiro de 2010
O "Norte" de Miguel Esteves Cardoso
O Norte é mais Português que Portugal. As minhotas são as raparigas mais bonitas do País. O Minho é a nossa província mais estragada e continua a ser a mais bela. As festas da Nossa Senhora da Agonia são as maiores e mais impressionantes que já se viram.
Viana do Castelo é uma cidade clara. Não esconde nada. Não há uma Viana secreta. Não há outra Viana do lado de lá. Em Viana do Castelo está tudo à vista. A luz mostra tudo o que há para ver. É uma cidade verde-branca. Verde-rio e verde-mar, mas branca. Em Agosto até o verde mais escuro, que se vê nas árvores antigas do Monte de Santa Luzia, parece tornar-se branco ao olhar. Até o granito das casas.
Mais verdades.
No Norte a comida é melhor.
O vinho é melhor.
O serviço é melhor.
Os preços são mais baixos.
Não é difícil entrar ao calhas numa taberna, comer muito bem e pagar uma ninharia
Estas são as verdades do Norte de Portugal
Mas há uma verdade maior.
É que só o Norte existe. O Sul não existe.
As partes mais bonitas de Portugal, o Alentejo, os Açores, a Madeira, Lisboa, et caetera, existem sozinhas. O Sul é solto. Não se junta.
Não se diz que se é do Sul como se diz que se é do Norte.
No Norte dizem-se e orgulham-se de se dizer nortenhos. Quem é que se identifica como sulista?
No Norte, as pessoas falam mais no Norte do que todos os portugueses juntos falam de Portugal inteiro.
Os nortenhos não falam do Norte como se o Norte fosse um segundo país
Não haja enganos.
Não falam do Norte para separá-lo de Portugal.
Falam do Norte apenas para separá-lo do resto de Portugal.
Para um nortenho, há o Norte e há o Resto. É a soma de um e de outro que constitui Portugal.
Mas o Norte é onde Portugal começa.
Depois do Norte, Portugal limita-se a continuar, a correr por ali abaixo.
Deus nos livre, mas se se perdesse o resto do país e só ficasse o Norte, Portugal continuaria a existir. Como país inteiro. Pátria mesmo, por muito pequenina. No Norte.
Em contrapartida, sem o Norte, Portugal seria uma mera região da Europa.
Mais ou menos peninsular, ou insular.
É esta a verdade.
Lisboa é bonita e estranha mas é apenas uma cidade. O Alentejo é especial mas ibérico, a Madeira é encantadora mas inglesa e os Açores são um caso à parte. Em qualquer caso, os lisboetas não falam nem no Centro nem no Sul - falam em Lisboa. Os alentejanos nem sequer falam do Algarve - falam do Alentejo. As ilhas falam em si mesmas e naquela entidade incompreensível a que chamam, qual hipermercado de mil misturadas, Continente.
No Norte, Portugal tira de si a sua ideia e ganha corpo. Está muito estragado, mas é um estragado português, semi-arrependido, como quem não quer a coisa.
O Norte cheira a dinheiro e a alecrim.
O asseio não é asséptico - cheira a cunhas, a conhecimentos e a arranjinho. Tem esse defeito e essa verdade.
Em contrapartida, a conservação fantástica de (algum) Alentejo é impecável, porque os alentejanos são mais frios e conservadores (menos portugueses) nessas coisas.
O Norte é feminino.
O Minho é uma menina. Tem a doçura agreste, a timidez insolente da mulher portuguesa. Como um brinco doirado que luz numa orelha pequenina, o Norte dá nas vistas sem se dar por isso.
As raparigas do Norte têm belezas perigosas, olhos verdes-impossíveis, daqueles em que os versos, desde o dia em que nascem, se põem a escrever-se sozinhos.
Têm o ar de quem pertence a si própria. Andam de mãos nas ancas. Olham de frente. Pensam em tudo e dizem tudo o que pensam. Confiam, mas não dão confiança. Olho para as raparigas do meu país e acho-as bonitas e honradas, graciosas sem estarem para brincadeiras, bonitas sem serem belas, erguidas pelo nariz, seguras pelo queixo, aprumadas, mas sem vaidade. Acho-as verdadeiras. Acredito nelas. Gosto da vergonha delas, da maneira como coram quando se lhes fala e da maneira como podem puxar de um estalo ou de uma panela, quando se lhes falta ao respeito. Gosto das pequeninas, com o cabelo puxado atrás das orelhas, e das velhas, de carrapito perfeito, que têm os olhos endurecidos de quem passou a vida a cuidar dos outros. Gosto dos brincos, dos sapatos, das saias. Gosto das burguesas, vestidas à maneira, de braço enlaçado nos homens. Fazem-me todas medo, na maneira calada como conduzem as cerimónias e os maridos, mas gosto delas.
São mulheres que possuem; são mulheres que pertencem. As mulheres do Norte deveriam mandar neste país. Têm o ar de que sabem o que estão a fazer. Em Viana, durante as festas, são as senhoras em toda a parte. Numa procissão, numa barraca de feira, numa taberna, são elas que decidem silenciosamente.
Trabalham três vezes mais que os homens e não lhes dão importância especial.
Só descomposturas, e mimos, e carinhos.
O Norte é a nossa verdade.
Ao princípio irritava-me que todos os nortenhos tivessem tanto orgulho no Norte, porque me parecia que o orgulho era aleatório. Gostavam do Norte só porque eram do Norte. Assim também eu. Ansiava por encontrar um nortenho que preferisse Coimbra ou o Algarve, da maneira que eu, lisboeta, prefiro o Norte. Afinal, Portugal é um caso muito sério e compete a cada português escolher, de cabeça fria e coração quente, os seus pedaços e pormenores.
Depois percebi.
Os nortenhos, antes de nascer, já escolheram. Já nascem escolhidos. Não escolhem a terra onde nascem, seja Ponte de Lima ou Amarante, e apesar de as defenderem acerrimamente, põem acima dessas terras a terra maior que é o "O Norte".
Defendem o "Norte" em Portugal como os Portugueses haviam de defender Portugal no mundo. Este sacrifício colectivo, em que cada um adia a sua pertença particular - o nome da sua terrinha - para poder pertencer a uma terra maior, é comovente.
No Porto, dizem que as pessoas de Viana são melhores do que as do Porto. Em Viana, dizem que as festas de Viana não são tão autênticas como as de Ponte de Lima. Em Ponte de Lima dizem que a vila de Amarante ainda é mais bonita.
O Norte não tem nome próprio. Se o tem não o diz. Quem sabe se é mais Minho ou Trás-os- Montes, se é litoral ou interior, português ou galego? Parece vago. Mas não é. Basta olhar para aquelas caras e para aquelas casas, para as árvores, para os muros, ouvir aquelas vozes, sentir aquelas mãos em cima de nós, com a terra a tremer de tanto tambor e o céu em fogo, para adivinhar.
O nome do Norte é Portugal. Portugal, como nome de terra, como nome de nós todos, é um nome do Norte. Não é só o nome do Porto. É a maneira que têm e dizer "Portugal" e "Portugueses". No Norte dizem-no a toda a hora, com a maior das naturalidades. Sem complexos e sem patrioteirismos. Como se fosse só um nome. Como "Norte". Como se fosse assim que chamassem uns pelos outros. Porque é que não é assim que nos chamamos todos?
Escrito por Miguel Esteves Cardoso
Viana do Castelo é uma cidade clara. Não esconde nada. Não há uma Viana secreta. Não há outra Viana do lado de lá. Em Viana do Castelo está tudo à vista. A luz mostra tudo o que há para ver. É uma cidade verde-branca. Verde-rio e verde-mar, mas branca. Em Agosto até o verde mais escuro, que se vê nas árvores antigas do Monte de Santa Luzia, parece tornar-se branco ao olhar. Até o granito das casas.
Mais verdades.
No Norte a comida é melhor.
O vinho é melhor.
O serviço é melhor.
Os preços são mais baixos.
Não é difícil entrar ao calhas numa taberna, comer muito bem e pagar uma ninharia
Estas são as verdades do Norte de Portugal
Mas há uma verdade maior.
É que só o Norte existe. O Sul não existe.
As partes mais bonitas de Portugal, o Alentejo, os Açores, a Madeira, Lisboa, et caetera, existem sozinhas. O Sul é solto. Não se junta.
Não se diz que se é do Sul como se diz que se é do Norte.
No Norte dizem-se e orgulham-se de se dizer nortenhos. Quem é que se identifica como sulista?
No Norte, as pessoas falam mais no Norte do que todos os portugueses juntos falam de Portugal inteiro.
Os nortenhos não falam do Norte como se o Norte fosse um segundo país
Não haja enganos.
Não falam do Norte para separá-lo de Portugal.
Falam do Norte apenas para separá-lo do resto de Portugal.
Para um nortenho, há o Norte e há o Resto. É a soma de um e de outro que constitui Portugal.
Mas o Norte é onde Portugal começa.
Depois do Norte, Portugal limita-se a continuar, a correr por ali abaixo.
Deus nos livre, mas se se perdesse o resto do país e só ficasse o Norte, Portugal continuaria a existir. Como país inteiro. Pátria mesmo, por muito pequenina. No Norte.
Em contrapartida, sem o Norte, Portugal seria uma mera região da Europa.
Mais ou menos peninsular, ou insular.
É esta a verdade.
Lisboa é bonita e estranha mas é apenas uma cidade. O Alentejo é especial mas ibérico, a Madeira é encantadora mas inglesa e os Açores são um caso à parte. Em qualquer caso, os lisboetas não falam nem no Centro nem no Sul - falam em Lisboa. Os alentejanos nem sequer falam do Algarve - falam do Alentejo. As ilhas falam em si mesmas e naquela entidade incompreensível a que chamam, qual hipermercado de mil misturadas, Continente.
No Norte, Portugal tira de si a sua ideia e ganha corpo. Está muito estragado, mas é um estragado português, semi-arrependido, como quem não quer a coisa.
O Norte cheira a dinheiro e a alecrim.
O asseio não é asséptico - cheira a cunhas, a conhecimentos e a arranjinho. Tem esse defeito e essa verdade.
Em contrapartida, a conservação fantástica de (algum) Alentejo é impecável, porque os alentejanos são mais frios e conservadores (menos portugueses) nessas coisas.
O Norte é feminino.
O Minho é uma menina. Tem a doçura agreste, a timidez insolente da mulher portuguesa. Como um brinco doirado que luz numa orelha pequenina, o Norte dá nas vistas sem se dar por isso.
As raparigas do Norte têm belezas perigosas, olhos verdes-impossíveis, daqueles em que os versos, desde o dia em que nascem, se põem a escrever-se sozinhos.
Têm o ar de quem pertence a si própria. Andam de mãos nas ancas. Olham de frente. Pensam em tudo e dizem tudo o que pensam. Confiam, mas não dão confiança. Olho para as raparigas do meu país e acho-as bonitas e honradas, graciosas sem estarem para brincadeiras, bonitas sem serem belas, erguidas pelo nariz, seguras pelo queixo, aprumadas, mas sem vaidade. Acho-as verdadeiras. Acredito nelas. Gosto da vergonha delas, da maneira como coram quando se lhes fala e da maneira como podem puxar de um estalo ou de uma panela, quando se lhes falta ao respeito. Gosto das pequeninas, com o cabelo puxado atrás das orelhas, e das velhas, de carrapito perfeito, que têm os olhos endurecidos de quem passou a vida a cuidar dos outros. Gosto dos brincos, dos sapatos, das saias. Gosto das burguesas, vestidas à maneira, de braço enlaçado nos homens. Fazem-me todas medo, na maneira calada como conduzem as cerimónias e os maridos, mas gosto delas.
São mulheres que possuem; são mulheres que pertencem. As mulheres do Norte deveriam mandar neste país. Têm o ar de que sabem o que estão a fazer. Em Viana, durante as festas, são as senhoras em toda a parte. Numa procissão, numa barraca de feira, numa taberna, são elas que decidem silenciosamente.
Trabalham três vezes mais que os homens e não lhes dão importância especial.
Só descomposturas, e mimos, e carinhos.
O Norte é a nossa verdade.
Ao princípio irritava-me que todos os nortenhos tivessem tanto orgulho no Norte, porque me parecia que o orgulho era aleatório. Gostavam do Norte só porque eram do Norte. Assim também eu. Ansiava por encontrar um nortenho que preferisse Coimbra ou o Algarve, da maneira que eu, lisboeta, prefiro o Norte. Afinal, Portugal é um caso muito sério e compete a cada português escolher, de cabeça fria e coração quente, os seus pedaços e pormenores.
Depois percebi.
Os nortenhos, antes de nascer, já escolheram. Já nascem escolhidos. Não escolhem a terra onde nascem, seja Ponte de Lima ou Amarante, e apesar de as defenderem acerrimamente, põem acima dessas terras a terra maior que é o "O Norte".
Defendem o "Norte" em Portugal como os Portugueses haviam de defender Portugal no mundo. Este sacrifício colectivo, em que cada um adia a sua pertença particular - o nome da sua terrinha - para poder pertencer a uma terra maior, é comovente.
No Porto, dizem que as pessoas de Viana são melhores do que as do Porto. Em Viana, dizem que as festas de Viana não são tão autênticas como as de Ponte de Lima. Em Ponte de Lima dizem que a vila de Amarante ainda é mais bonita.
O Norte não tem nome próprio. Se o tem não o diz. Quem sabe se é mais Minho ou Trás-os- Montes, se é litoral ou interior, português ou galego? Parece vago. Mas não é. Basta olhar para aquelas caras e para aquelas casas, para as árvores, para os muros, ouvir aquelas vozes, sentir aquelas mãos em cima de nós, com a terra a tremer de tanto tambor e o céu em fogo, para adivinhar.
O nome do Norte é Portugal. Portugal, como nome de terra, como nome de nós todos, é um nome do Norte. Não é só o nome do Porto. É a maneira que têm e dizer "Portugal" e "Portugueses". No Norte dizem-no a toda a hora, com a maior das naturalidades. Sem complexos e sem patrioteirismos. Como se fosse só um nome. Como "Norte". Como se fosse assim que chamassem uns pelos outros. Porque é que não é assim que nos chamamos todos?
Escrito por Miguel Esteves Cardoso
5 de janeiro de 2010
Agenda...
17º Jornadas Pedagógicas de Educação Ambiental (28 a 31 de Janeiro de 2010) - PDL
http://www.aspea.org/
3º Encontro de Educação e Turismo Ambiental da SETA (9 a 11 de Abril de 2010) - PDL
http://www.seta.org.pt/default.htm
EIEM 2010 da APM (17 e 18 de Abril de 2010) - Costa da Caparica
http://www.fct.unl.pt/eiem2010
XXI SIEM - Seminário de Investigação em Educação Matemática da APM (1 e 2 de Setembro de 2010) - Aveiro [ProfMat logo de seguida]
http://www.apm.pt/
http://www.aspea.org/
3º Encontro de Educação e Turismo Ambiental da SETA (9 a 11 de Abril de 2010) - PDL
http://www.seta.org.pt/default.htm
EIEM 2010 da APM (17 e 18 de Abril de 2010) - Costa da Caparica
http://www.fct.unl.pt/eiem2010
XXI SIEM - Seminário de Investigação em Educação Matemática da APM (1 e 2 de Setembro de 2010) - Aveiro [ProfMat logo de seguida]
http://www.apm.pt/
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